O documentário apresentado no dia 6/4 não fala sobre a minha
realidade e, provavelmente, não fala da realidade das diversas pessoas que o
assistiram. Fala de uma minoria, primeiramente citada num catálogo de pessoas
mais influentes do Brasil e, depois, selecionada de acordo com sua moradia, que
no caso se falava de coberturas.
A linguagem do documentário é interessante, a pessoa que
está entrevistando pouco fala, deixando espaço para o entrevistado desenvolver
sua fala como quer. Isso permite que o público veja a perspectiva dos moradores
com maior clareza e eles, sem ter noção do público e da discussão levantada,
não disfarçam nem quando são arrogantes.
É curioso ver como a arquitetura também tem um papel de
exclusão, de distanciamento tão grande que a empatia já não é mais presente. Um
momento que ilustrou isso muito bem foi quando uma moradora de cobertura rio
junto ao seu marido dos tiros que aconteciam no solo, do qual ela não sentia
que fazia parte de tal modo que comentava como eles pareciam fogos de
artifício.
Num ambiente, condomínio, no qual a pessoa tem todo seu entretenimento
juntamente com o lazer proporcionado pela era digital, não há nenhuma
necessidade de interação com as pessoas que estão, literalmente, por baixo. Uma
pessoa não tem por que ir à praia e interagir com estranhos se tem uma piscina
em sua cobertura, por exemplo.
E essa falta de interação é perigosa, diminui o nosso
reconhecimento do próximo como semelhante. Eles acham que estão mais próximos
de deus no último andar, mas, com isso, estão cada vez mais distante dos
humanos. Isso não seria um problema se essas pessoas não interferissem na vida
dos outros, mas é preciso relembrar que elas são consideradas as pessoas mais
influentes do país.